quarta-feira, 20 de maio de 2015

A experiência de um jogo com portões fechados

Lá fui eu pra Joinville com uma missão diferente. Transmitir um jogo, no estádio, que não teria torcida. Já fiz dezenas de jogos no chamado "tubo", quando a gente narra em cima da imagem da TV com o repórter no estádio, as vezes nem isso. Nesse caso, as emissoras põem uma trilha com o som de torcida. Isso ajuda a dar um clima pra transmissão.

Sabia que não ia ter isso. Era um jogo importante, do Joinville contra o milionário time do Palmeiras, a estreia do time em casa na Série A. Certamente o estádio estaria lotado se pudesse ter público. Mas como no jogo com a Ponte Preta o rapaz do sistema de som teve uma tremenda infelicidade... torcida do lado de fora.

Sem trânsito algum, cheguei no estádio, e lá estava o guindaste com a ideia maluca de transmitir um audio com 5 ou 6 segundos de delay do mercado para dentro da Arena. Imagina só, um gol acontecer e o grito da torcida só vir depois de um tempo. O Delfim vetou e o guindaste foi embora. Alguém pagou essa conta.

A gente sempre é dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair do estádio. Estamos acostumados a ver as arquibancadas enchendo e esvaziando. Dessa vez foi tudo em silêncio. Chegava a hora do jogo e tudo o que eu via era o pessoal da imprensa escrita ligando seus notebooks na minha frente. Os times entraram em campo num "silêncio ensurdecedor", como escreveu Nelson Rodrigues. Um negócio frio que todos olhavam com um misto de ironia e vergonha. Um jogo importante daqueles para algumas pessoas que estavam lá pra trabalhar.

E vamos ao jogo. Durante a narração você tem que sentir o clima da torcida, seja num contra-ataque engatado ou naquele "uuuuu" de um gol perdido. Não tinha nada, só o som do pessoal conversando em campo como uma pelada de domingo de manhã. Pensei a semana toda em como transmitir aquilo. Decidi "imaginar" uma trilha de torcida roncando no retorno, pra ver se dava pra manter o ritmo.

Foi difícil, saí de lá mais cansado que de costume. Manter o embalo em um clima que nada conspira a favor é complicado. Em um jogo fora de casa, por exemplo, há aquela coisa do time visitante que pressiona para calar a maioria dos torcedores. Ali não tinha ninguém pra calar, nem pra comemorar.

O jogo não teve gol. Aliás, não sei o que é narrar gol do JEC já faz um tempo. Os últimos 4 que eu fiz o tricolor passou em branco. Mas espero nunca mais ter que fazer um jogo sem torcida. É como se você tivesse falando para ninguém, ainda que o rádio e a internet te levem pra todos os cantos do mundo. Em outros tempos, a gente sabia a audiência da rádio pelo "chicote", a vinheta do tempo. Os rádios portáteis tinham altofalantes colados no ouvido e ecoavam no estádio. Os fones reduziram isso, mas você tinha na cabeça que alguém estava ali, sentado, te ouvindo e inserindo tua voz na emoção do jogo. No domingo não tinha ninguém na Arena que sempre tem bons públicos.

Pode até ter parecido simples, mas não foi. Vai pra minha história e de todos que lá foram trabalhar. Público de treino em um jogo importantíssimo. Foi futebol sem um dos seus ingredientes mais importantes, onde foi provado que sem ela, a torcida, o jogo fica sem graça.


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