terça-feira, 29 de novembro de 2016

Nas alegrias e nas horas mais difíceis

O ano era 1999. Estava no início de carreira no rádio. Tudo era novo. A emissora botou eu e o Xirú, meu parceiro de tantos quilômetros, num carro alugado as 5 da manhã pra fazer um bate e volta pra Chapecó. Hoje não tenho mais saco pra isso, mas naquela época eu tava amando. Após a parada pro almoço no Barriga Verde (uma tradição), fui conhecer o famoso Estádio Regional Índio Condá, bem diferente do que ele é hoje. Ao entrar no campo, conheci o Picolé. Me saudou com um "e aí guri, tu és de Brusque? Vieram pra tomar quanto da Chape?". Dei risada.

Vi naquele jogo um cenário bem diferente do que é hoje. A partida foi morna. No intervalo, fizeram um amistoso Gre-Nal da criançada. Deu briga na arquibancada. Quem diria que uma década e pouco depois, esse cenário seria bem diferente.

No mesmo ano, Jogos Abertos em Chapecó. A rádio me mandou de ônibus pra lá. A Central de Imprensa era no piso superior da rodoviária. Lá tava o Picolé de novo. Junto, o professor Tadeu Costa. Criava ali um contato que nunca se encerrou. É incrível como esse pessoal nos recebia bem. Se faltasse alguma coisa, davam um jeito. E sempre rolava uma resenha a noite, depois da partida. Posso dizer que são grandes amigos.

No campo, eu vi o crescimento da Chapecoense, que chegou a ficar próximo a fechar as portas, trocando até de nome. Mas aquele rebaixamento mal resolvido foi a deixa para uma estruturação que levou o clube ao patamar onde se encontra atualmente. Meus amigos estavam eufóricos, viajando o Brasil a bordo da van do "Nene" ou de avião. Sim, essa turma da imprensa era tão unida que viajavam juntos.

A Chape virou o time mais querido do Brasil, pela forma como conquistou seus resultados, em uma cidade hospitaleiríssima dos seus 200 mil habitantes. É um clube organizado, sanado, com dinheiro em caixa. Todo jogador iria querer jogar lá, isso é fato. Resultado disso era a final da sulamericana e a provável ida a uma Libertadores, que coroaria esse sucesso. Quis o destino que isso não acontecesse, causando perplexidade mundial.

As vidas não serão mais recuperadas, mas a Chapecoense é grande e se reerguirá. Os clubes da Série A tiveram uma atitude louvável ao anunciar que colaborarão para isso e solicitando que a CBF garanta uma "Imunidade" de três anos na Série A. É correto, até porque esse processo não será rápido.

Grandes jogadores se foram. Alguns experientes e em boa fase, como Cléber Santana, como aqueles que conseguiram bons contratos em outros clubes.

Perdi grandes amigos.

Renan, um jovem brilhante, fizemos alguns trabalhos na RIC. Ficou noivo recentemente. Tava cheio de planos.

Douglas, o Piazinho, de tantas histórias e tantos Jogos Abertos nas costas. Sempre solícito, buscava até no aeroporto se precisasse.

Picolé, quem me recebeu no meu primeiro Jasc lá, onde o centro de imprensa era no piso de cima da rodoviária.

Galiotto, o italiano mais engraçado que eu conheci, temos várias histórias pra contar. Carinhosamente eu o chamava de "Haroldo", pois eu achava que a voz dele parecia com a do Haroldo de Souza.

Fernando, uma voz fantástica. Quando ele ganhou o prêmio Acaert lá em Joinville ( eu era um dos três finalistas), ele me abraçou e me disse "cara, tens um futuro brilhante".

Cléberson, que tava trabalhando no clube, sabia tudo de tênis de mesa.

Grande Giba, torcedor fanático que virou jornalista pra ser assessor do clube.

Djalma, brilhante cinegrafista da RBS, que encontrei ao acaso lá na praia do Siriú curtindo um descanso com a família.

Rafael, meu parceiro, força aí que você vai sair dessa.

Ano que vem tem Jogos Abertos lá. Falta um ano, mas já sinto que serão os 550 km mais doloridos que eu vou percorrer. Porque essa turma, que recebe a todos tão bem, não estará mais lá pra darmos muita risada.

Quero também mandar um abraço para a família do presidente Delfim. Todos sabem que tive minhas diferenças com ele no campo do futebol. Mas não passa disso.

E um grande abraço para todo o povo de Chapecó e para os familiares das vítimas. Nosso ano já acabou, será uma ferida que levará muito, mas muito tempo para sarar.







Um comentário:

  1. Boa tarde Rodrigo, por esta tragédia ocorrida resolvi abrir uma petição para que a ANAC exija o fornecimento de dados como plano de vôo das empresas aéreas aos passageiros. Ficaria muito feliz com seu apoio! https://secure.avaaz.org/po/petition/AGENCIA_NACIONAL_DE_AVIACAO_CIVIL_ANAC_Direito_dos_Passageiros_de_Acesso_ao_Plano_de_Voo_Aprovado/

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