quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A FCF sem Delfim

A tragédia na Colômbia, que dói em todos os nossos corações, e que afetará por muito tempo a cidade de Chapecó e a Chapecoense, acabou também provocando um outro grande impacto dentro do futebol catarinense, com o desaparecimento de Delfim de Pádua Peixoto Filho, presidente da FCF.

Três décadas no poder. Sempre polêmico. Discordei de muitos posicionamentos dele. Concordei em outros. Faz parte, isso é futebol. Era um pai que fez o possível e o impossível para defender sua família. Insurgiu contra a CBF. Seu twitter, nos últimos meses, só continha retweets de matérias contra Marco Polo Del Nero. Essa voz, de uma oposição ferrenha, se calou.

Fica a dúvida de como será o futebol catarinense a partir de agora. Afinal, 3 décadas não são 3 meses nem 3 anos. Uma mudança na Federação que teve um presidente por tanto tempo provoca aquela saída da zona de conforto.

O atual mandato vai até abril de 2019. É bom ressaltar que o estatuto da FCF praticamente inviabiliza duas candidaturas no processo eleitoral, já que exige assinaturas de um percentual de eleitores e ele tinha as ligas na mão. Certa vez, um presidente da liga de Brusque (que estava inativa e teve interventor nomeado recentemente) disse que ganhava bolas e diária de hotel em Balneário Camboriú para votar. Vamos concordar, o homem era bom de política. Há uns bons anos atrás, o ex-presidente do Criciúma Moacir Fernandes tentou montar uma chapa opositora. A ideia morreu na casca, já que as ligas definem o vencedor.

Para agradar os clubes e conquistar mais um mandato,  o "Dr. Delfim", como era chamado nos corredores da FCF, costurou bem as alianças. Do sul, se juntou com Antenor Angeloni, então presidente do Tigre, com quem se afinou muito bem, e colocou Rubens Angelotti, seu braço-direito no clube, como um dos vices. Do Oeste, trouxe Nei Maidana, ex-presidente da Chape. No Vale indicou Ericsson Luef, ex-diretor do Metropolitano e dono da empresa Hemmer, que acabou dando nome ao Estadual de 2015, aquele que acabou com tapetão e troféu roubado. Na capital, colocou o saudoso João Nilson Zunino, já ex-presidente do Avaí  e em complicado estado de saúde. Quando tomou posse, ele já não estava entre nós. Teve ainda Laudir Zermiani, o incansável presidente da Liga Joinvilense, único representante do futebol amador. Quando tirava licença, Delfim nomeava um deles pra sentar na cadeira de presidente. Chegou a ficar um bom tempo fora, esperando a brecha para assumir a CBF. Foi vítima de um golpe quando aconteceu a manobra para colocar o Coronel Nunes no lugar de José Maria Marin em uma das vice-presidências.

Mas em caso de vacância não há nomeação, assume o mais velho, assim como na CBF. Como Zunino faleceu, Rubinho vai assumir a presidência da FCF, dando aos clubes o comando do futebol estadual. O trágico acidente impediu que Delfim terminasse aquele que ele dizia ser seu último mandato ou indicasse um sucessor de sua confiança. Dentro do suntuoso prédio de Balneário Camboriú existem fieis escudeiros seus que poderiam muito bem ser indicados para assumir o comando daqui a três anos.

Os clubes, que também terão que se organizar na Associação, que era presidida pelo competentíssimo Sandro Pallaoro, terão dentro da FCF um presidente indicado por um dos seus, o que me dá a ideia, em um primeiro momento, de um estreitamento do contato e até, porque não dizer, de profundas mudanças dentro da Federação e uma gestão unida dos rumos do futebol em Santa Catarina. Essa visão me agrada bastante. Resta ver o que o novo presidente fará ao assumir o gabinete.

Tragédia à parte, apareceu uma oportunidade para uma guinada no futebol de Santa Catarina.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Chape vai se reerguer

A perda foi irreparável. Acho que todos estão sentindo com se tivessem perdido um irmão, um amigo, um ente querido. Mas assim como nas perdas familiares, todos devem, na medida do possível, tentar voltar à vida normal. É um processo até natural em qualquer situação de luto.

A Chapecoense se reerguerá, tenho certeza disso. Existem pessoas dentro do clube com capacidade, que podem trazer outros profissionais competentes. Uma das heranças deixadas por Sandro Pallaoro foi um clube sanado, com dinheiro em caixa, e com estrutura suficiente para ser bem tocado.

O clube perdeu a sua estrutura do futebol, aquela que colocou o time onde está hoje. Mas um saiu da Chape, passou por momento difícil e penso ser o momento ideal para a sua volta. João Carlos Maringá seria uma pessoa importante para essa retomada. Para quem não sabe, ele perdeu a esposa há alguns dias, vítima de câncer. Pode ser a oportunidade ideal para ambos retomarem a caminhada da vida.

É louvável a atitude dos outros clubes (e, segundo informações, já aceita pela CBF) de "blindar" o time do rebaixamento por três temporadas, além da ajuda para a remontagem do elenco. Atitude semelhante já está sendo ventilada no Estadual. Isso dá tranquilidade para uma reconstrução tranquila e bem estruturada. A Chape tem hoje uma das melhores divisões de base do Estado (venceu o jogo de ida da decisão do estadual de juniores contra o Criciúma. A volta seria nesta quinta, mas o jogo foi suspenso pela FCF), e ali há uma semente plantada com muitos valores (Hyoran, vendido para o Palmeiras, é um deles). Os jogadores que ficaram, como Rafael Lima, Boeck e Martinuccio, já garantem o início do trabalho.

Guardadas as proporções e circunstâncias, é como se o time fosse rebaixado. Muito clube faz uma revolução enorme no elenco. A Chape terá, forçosamente e de forma triste, que fazer isso. Mas dá, é possível. Com competência e o empurrão de um Brasil inteiro que torcerá por ele.



terça-feira, 29 de novembro de 2016

Nas alegrias e nas horas mais difíceis

O ano era 1999. Estava no início de carreira no rádio. Tudo era novo. A emissora botou eu e o Xirú, meu parceiro de tantos quilômetros, num carro alugado as 5 da manhã pra fazer um bate e volta pra Chapecó. Hoje não tenho mais saco pra isso, mas naquela época eu tava amando. Após a parada pro almoço no Barriga Verde (uma tradição), fui conhecer o famoso Estádio Regional Índio Condá, bem diferente do que ele é hoje. Ao entrar no campo, conheci o Picolé. Me saudou com um "e aí guri, tu és de Brusque? Vieram pra tomar quanto da Chape?". Dei risada.

Vi naquele jogo um cenário bem diferente do que é hoje. A partida foi morna. No intervalo, fizeram um amistoso Gre-Nal da criançada. Deu briga na arquibancada. Quem diria que uma década e pouco depois, esse cenário seria bem diferente.

No mesmo ano, Jogos Abertos em Chapecó. A rádio me mandou de ônibus pra lá. A Central de Imprensa era no piso superior da rodoviária. Lá tava o Picolé de novo. Junto, o professor Tadeu Costa. Criava ali um contato que nunca se encerrou. É incrível como esse pessoal nos recebia bem. Se faltasse alguma coisa, davam um jeito. E sempre rolava uma resenha a noite, depois da partida. Posso dizer que são grandes amigos.

No campo, eu vi o crescimento da Chapecoense, que chegou a ficar próximo a fechar as portas, trocando até de nome. Mas aquele rebaixamento mal resolvido foi a deixa para uma estruturação que levou o clube ao patamar onde se encontra atualmente. Meus amigos estavam eufóricos, viajando o Brasil a bordo da van do "Nene" ou de avião. Sim, essa turma da imprensa era tão unida que viajavam juntos.

A Chape virou o time mais querido do Brasil, pela forma como conquistou seus resultados, em uma cidade hospitaleiríssima dos seus 200 mil habitantes. É um clube organizado, sanado, com dinheiro em caixa. Todo jogador iria querer jogar lá, isso é fato. Resultado disso era a final da sulamericana e a provável ida a uma Libertadores, que coroaria esse sucesso. Quis o destino que isso não acontecesse, causando perplexidade mundial.

As vidas não serão mais recuperadas, mas a Chapecoense é grande e se reerguirá. Os clubes da Série A tiveram uma atitude louvável ao anunciar que colaborarão para isso e solicitando que a CBF garanta uma "Imunidade" de três anos na Série A. É correto, até porque esse processo não será rápido.

Grandes jogadores se foram. Alguns experientes e em boa fase, como Cléber Santana, como aqueles que conseguiram bons contratos em outros clubes.

Perdi grandes amigos.

Renan, um jovem brilhante, fizemos alguns trabalhos na RIC. Ficou noivo recentemente. Tava cheio de planos.

Douglas, o Piazinho, de tantas histórias e tantos Jogos Abertos nas costas. Sempre solícito, buscava até no aeroporto se precisasse.

Picolé, quem me recebeu no meu primeiro Jasc lá, onde o centro de imprensa era no piso de cima da rodoviária.

Galiotto, o italiano mais engraçado que eu conheci, temos várias histórias pra contar. Carinhosamente eu o chamava de "Haroldo", pois eu achava que a voz dele parecia com a do Haroldo de Souza.

Fernando, uma voz fantástica. Quando ele ganhou o prêmio Acaert lá em Joinville ( eu era um dos três finalistas), ele me abraçou e me disse "cara, tens um futuro brilhante".

Cléberson, que tava trabalhando no clube, sabia tudo de tênis de mesa.

Grande Giba, torcedor fanático que virou jornalista pra ser assessor do clube.

Djalma, brilhante cinegrafista da RBS, que encontrei ao acaso lá na praia do Siriú curtindo um descanso com a família.

Rafael, meu parceiro, força aí que você vai sair dessa.

Ano que vem tem Jogos Abertos lá. Falta um ano, mas já sinto que serão os 550 km mais doloridos que eu vou percorrer. Porque essa turma, que recebe a todos tão bem, não estará mais lá pra darmos muita risada.

Quero também mandar um abraço para a família do presidente Delfim. Todos sabem que tive minhas diferenças com ele no campo do futebol. Mas não passa disso.

E um grande abraço para todo o povo de Chapecó e para os familiares das vítimas. Nosso ano já acabou, será uma ferida que levará muito, mas muito tempo para sarar.