quinta-feira, 2 de março de 2017

Por um travessão

Para o Corinthians, será apenas mais um confronto onde, com muito sufoco e graças a um travessão, o time seguiu em frente na Copa do Brasil. Para o Brusque, será uma decepção que durará muito tempo em uma partida em que os torcedores contarão para os netos onde eles estavam na noite de primeiro de março de 2017.

Uma bola no travessão. Isso é futebol.

Não foi uma primazia de jogo, mas o Brusque soube equilibrar o jogo contra o Coringão, que marcou forte a saída e depois precisou recompor em cima dos espaços que abriram. A defesa brusquense dava alguns sustos com as bolas recuadas (e, é bom mencionar, quase inexistentes no estadual) mas vinha dando jeito. No segundo tempo, as oportunidades aumentaram com a reestreia de Jadson, que tentou dar mais qualidade ao time paulista. Mais tarde, Fábio Carille colocou Jô, mas sem a rede balançar. Era alerta de pênaltis.

O erro de Jadson deu a letra para que o Brusque tivesse a bola da classificação. Ele chutou com força demais e explodiu o travessão. Costumo dizer que "só perde pênalti quem bate", por causa do tamanho da pressão em uma decisão dessas. Nas alternadas, Carlos Alberto chutou pra fora. Estão xingando o técnico pela escolha. Se tivesse feito, ninguém teria falado. É futebol.

A cidade acordará triste pelo resultado, mas certo de que o time é bom. Tem aí um estadual pela frente, com boas possibilidades de conquistar mais uma ida à Copa do Brasil. O Corinthians tomou um susto, dentro do seu processo de montagem de time. Afinal, ficou muito próximo da eliminação.

A festa foi legal, e não tivemos problemas. Segurança funcionou muito bem

E vida que segue. O Brusque volta a focar o Estadual, enfrentando o Joinville no sábado.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sim, é possível

O novo regulamento da Copa do Brasil criou uma verdadeira arapuca para times grandes. Não há mais a chance do jogo de volta para recuperação, tampouco a brecha para se poupar time. No ano de estreia, já tivemos times de maior expressão eliminados no início. De certa forma, essa nova dinâmica permite aos clubes menores uma possibilidade real de crime.

E é isso que o Brusque persegue. Surpreender. E isso é possível.

Vieram propostas, mas a pressão da comunidade pesou. Não havia saída para a diretoria, que teve que manter o jogo aqui, mesmo com público reduzido. Essa é a chave do jogo. Uma partida só, no Augusto Bauer e sua grama de jardim (que, diga-se de passagem, nunca esteve tão boa), com o empate levando a decisão para os pênaltis.

Vamos falar do jogo. Existe uma frase já dita muitas vezes no futebol de que "futebol é momento". E, vamos combinar, o momento do Brusque é muito bom. Vice-líder do Estadual, com quatro vitórias em cinco partidas, o time de Pingo colhe bons resultados, mesmo tendo problemas a resolver. Vejo um time que vai evoluindo no ataque, com o crescente número de oportunidades que surgem para Jonatas Belusso e Ricardo Lobo. Mesmo otimismo não vejo na defesa, onde Pingo chegou a reclamar das falhas de posicionamento da dupla Cleyton-Neguete, este último guindado a titular depois da estranha dispensa de Gustavo ainda na pré-temporada. Veio Willames, o irmão de Willian José, da Campinense para, teoricamente, ser o titular. Ele jogou no sábado, e o time fez 3 a 0 no Inter.

O Corinthians teve um início de ano bastante irregular mas parece ter acertado o seu rumo. Fábio Carille poupou jogadores no final de semana para colocar o que tem de melhor a sua disposição no Augusto Bauer. Ele sabe que precisará de Jadson, tanto que deve estrear nesta quarta, para dar um ganho de qualidade considerável ao seu time.

Serão noventa minutos para definir o classificado, onde o Brusque terá que fazer a melhor atuação do ano ou, na pior das hipóteses, empatar com a melhor até aqui. O time precisa ter foco e não cair no nervosismo, como vimos no primeiro tempo da partida contra o Remo. O técnico Pingo tirou o treino do estádio na véspera do jogo para ter calma para trabalhar. Fez o certo.

Vejo um grande respeito de todas as partes, reflexo da boa campanha do Bruscão no campeonato estadual. E quem viu as vitórias contra Chapecoense e Remo, construídas em cima de muita entrega e bom futebol, não tem como não acreditar na possibilidade de bater um dos maiores times do país.






Top sem bola

É complicado escolher uma seleção de campeonato. Cada um tem a sua. Fórmulas, existem várias. Até aí, sem problema. Mas a partir do momento que uma Federação toma uma eleição como a sua "oficial", que é entregue com toda a pompa em um evento um dia após a decisão, a história muda um pouco.

Há alguns anos, o renomado instituto Mapa realiza o chamado "Top da Bola", a escolha dos melhores do catarinense. Como muita gente indignada já perguntou como funciona, eu explico:

Teoricamente, todos os radialistas que transmitem os jogos deveriam votar nos jogos que trabalharam. Um exemplo: vamos supor que trabalhei em um Brusque x Joinville. Preciso fazer uma "seleção" desse jogo, escolhendo o melhor goleiro do jogo, dois laterais, dois zagueiros, etc. e dar uma nota para eles. Depois, eles juntam essas notas (o critério nunca ficou claro) e divulgam a seleção da rodada. Eu sei de caso que radialistas de uma cidade combinaram de todos darem 10 para determinado jogador. E ele não foi para a seleção.

Não voto há anos nessa eleição pois não consigo ver realidade dentro dela. Prova cabal veio nesta segunda, na divulgação da relação da "seleção" da oitava rodada do turno. Maicon Silva, lateral-direito do Criciúma, entrou na lista (foto) como o melhor lateral-esquerdo do final de semana. Acontece que ele não entrou em campo no maluco 5 a 4 contra o Metropolitano. Ficou no banco de reservas. Ora, como ele foi parar lá?




domingo, 26 de fevereiro de 2017

Bruscão x Timão, o jogo que mexe com a cultura da região

Acho que era ano 2000, por aí. Eu fui a Chapecó transmitir um Brusque x Chapecoense do Estadual. O primeiro tempo foi horrível, tinha torcedor dormindo. No intervalo, aconteceu um Gre-Nal de crianças. Deu briga na arquibancada. Em outro ida ao Oeste, fui fazer um lanche lá no Bar do Boca. De repente, passam colorados puxando gremistas em uma carroça em plena Avenida Getúlio Vargas.

Isso faz parte do passado por lá. A Chape é a dona da cidade. Aqui em Brusque isso ainda é muito presente.

O jogo Brusque x Corinthians mexe muito com o espírito do segundo time, ou "misto", como torcedores de cidades com futebol estabilizado, como Criciúma, Joinville e Floripa, falam. Isso tem explicação.

Eu passei por isso.

Camisa de torcedor para o jogo (foto: Facebook)
A região do Vale foi "catequizada" por emissoras de rádio de fora, que entravam no AM com som local no período da noite. Além do mais, por causa do relevo, cerca de duas em cada três residências tem antena parabólica, o que os tira do circuito das emissoras abertas locais que, no caso de Brusque, não davam bola alguma para cá. Acho que minha profissão veio disso. Eu tinha nove ou dez anos, e em dado momento tinha dificuldade para dormir. Meu pai, vascaíno que carrega a maior decepção em ter deixado seu filho virar flamenguista, me ensinou, com um rádio nove faixas que eu ganhei na minha primeira comunhão, a sintonizar a Globo e a Tupi, com seus noticiários esportivos noturnos. Mais tarde descobri a Rádio Gaúcha, com os debates da madrugada do recém-falecido Jayme Copstein. Me ajudava a relaxar e dormir. Sim, enquanto muitos ouvem música para relaxar, eu ouço notícia.

O Brusque foi campeão catarinense em 1992, mas acumulou uma série de acessos e descensos desde então. Resultados expressivos em nível nacional, nenhum. E assim cresceu a torcida, sempre com um time grande acompanhado do local para os mais velhos. Quando o sistema de som do Estádio Augusto Bauer anuncia um gol no Carioca ou no Paulista, é uma festa. Aqui tem Fla-Brusque, Vasco-Brusque, Fiel-Brusque, consulado do Inter. Teve até um encontro gigante de palmeirenses. Temos que compreender, essa é a realidade. Até o Bruscão conquistar resultados bons, como os títulos nacionais de Avaí, JEC e Criciúma ou acessos para, no mínimo, a Série C, será assim. Some-se aí o fato do Brusque ser um clube comandado por um grupo de abnegados que não conta com apoio das entidades empresariais da cidade, e nem tem um departamento eficiente de comunicação e marketing, por falta de dinheiro. O clube não tem plano de sócio: tentou criar um ano passado que foi um fracasso. A Kanxa, fornecedora de material (para um clube de uma cidade têxtil, que poderia fabricar aqui), demorou quase dois meses pra entregar camisas para venda. Não é fácil.

Quis o destino que o Brusque herdasse da Chapecoense uma vaga na Copa do Brasil e enfrentasse um dos maiores clubes do país, em casa, para aflorar esse sentimento duplo do torcedor. O Corinthians pediu, e todos os ingressos de visitante foram para São Paulo. Os alvinegros da região tiveram que comprar ingresso no espaço do Brusque. Pode dar confusão, ou não. Lado a lado estarão moradores da mesma cidade que estarão em uma situação diferente. Se fosse Flamengo, Vasco, Palmeiras, Inter ou Grêmio seria igual. Mudariam apenas as pessoas. O Brusque, que leva seus 2 ou 3 mil torcedores por jogo, não atrai a atenção de toda a cidade, que tem 120 mil habitantes. O Corinthians, com todo o seu poder midiático que chega em doses cavalares pela TV, tem muitos fãs. Sendo que grande parte nunca viu um jogo dele ao vivo.

O jogo desta quarta será um divisor de águas. É o primeiro jogo do Brusque em rede nacional. Será o maior acontecimento esportivo dessa cidade depois da final do Estadual de 1992, onde Claudio Freitas fez aquele gol antológico contra o Avaí. Aparece uma oportunidade do clube capitalizar mais torcedores e chegar próximo de onde os cinco grandes do Estado chegaram.

O resultado do jogo em si é o de menos. O Corinthians é favorito, apesar do Brusque ter estabelecido uma boa sequência, culminando com um 3 a 0 em Lages no sábado de carnaval. Será um jogo para contar para os netos.

E que tenhamos uma noite tranquila.