sexta-feira, 27 de abril de 2018

O Bê-a-bá da eleição da FCF

O ex-presidente da Federação Catarinense de Futebol, Delfim de Pádua Peixoto, falecido na tragédia da Colômbia, era um político nato. Sabia como juntar todos do seu lado e não dar chance para seus opositores o ameaçarem na disputa pelo comando da cadeira forte do futebol de Santa Catarina. Sua última eleição foi por aclamação. Amarrou um estatuto que lhe dá o campo, a bola e o juiz a seu favor. Sabia agradar. Há um bom tempo, entrevistei um ex-presidente da Liga Desportiva Brusquense (hoje extinta) que me afirmou que ganhava bolas e diárias no Hotel Marambaia nos dias de eleição. Não havia nada ilegal nisso, apesar de questionarmos a moralidade. Resumindo: um presidente da FCF só sai do cargo se quiser ou se for muito desastrado na parte política. O caso envolvendo a eleição marcada para segunda-feira é muito interessante. Se você não está entendendo o que acontece, vou tentar explicar da forma mais sucinta e didática.

Primeira situação interessante: a eleição na FCF não tem data, como acontece no mundo político. O presidente, que tem mandato encerrando em 12 de abril do ano que vem, tem um ano para convocá-la, na data que quiser, podendo ser agora ou na véspera da posse. Isso deixa uma possível oposição perdida, pois não sabe quando terá que ir pra rua fazer campanha. Rubens Angelotti não deu tempo pro outro lado se articular. Começou o prazo, ele já convocou a Assembleia pra duas semanas depois, para não dar tempo do opositor viajar o Estado para divulgar sua plataforma. Por exemplo, o presidente do Brusque, Danilo Rezini, conversou comigo pelo Whatsapp e quando perguntei para ele sobre quem apoiaria na eleição, me disse que o pleito ocorre a "toque de caixa", sem tempo para analisar a composição da chapa e as propostas da oposição. Admitiu que foi procurado pelo candidato opositor.

Segunda situação: a chapa só pode ser inscrita com o apoio por escrito de, no mínimo, 40% dos clubes e ligas aptos a votar. Isso, por si só, limitaria a duas pessoas concorrendo à presidência. O mais curioso, e ressalte-se que isso é legal, é que no mesmo dia da publicação do edital no jornal (17/04), Angelotti já tinha as assinaturas para inscrever sua candidatura. Já tinha o documento pronto. Não deixou tempo (uma semana apenas da publicação até o fim do prazo de inscrições) para que a oposição se montasse. Eles conseguiram quatro apoios, incluindo aí o do Joinville, que constitui no único clube grande que declaradamente apresentou posição contrária à atual gestão.

Alexandre Monguilhott, candidato da oposição, teve sua candidatura impugnada pela Comissão Eleitoral e buscou a justiça de Balneário Camboriú para barrar a eleição na segunda, sem sucesso até agora.

Tal estratégia não é exclusiva da FCF. Pesquisei e vi que outras entidades, não esportivas, também usam da mesma estratégia de não dar tempo para que uma oposição se organize. Penso que isso não é saudável para o processo como um todo, já que se a eleição acontecesse em mais tempo, os clubes poderiam decidir melhor, o debate aconteceria e a exposição de propostas poderia ser mais amplo. Mas, nesse Brasil que vivemos, com tudo o que acontece no futebol, sabemos que esse seria um cenário complicado. O processo eleitoral na Federação judicializou e poderemos ter novos capítulos.