quarta-feira, 25 de julho de 2018

O rebaixamento do Joinville - Parte final

A Série D é um inferno, ainda mais pra quem estava acostumado com um calendário legal na Série B, ou até mesmo as 18 rodadas da primeira fase da C, que provocam um fim de temporada ainda em agosto, no máximo setembro. Na quarta divisão nacional, se o time não passar da primeira da fase, encerrará sua participação em apenas 45 dias. Se ficar na segunda fase, serão só dois meses, ou oito jogos. É um campeonato deficitário por si só, praticamente sem TV e que representa a carne de pescoço que cada time precisa encarar se quiser a busca pela estabilidade.

Saiba que teve diretor do Joinville achando que "seria bom" o time deixar a Série C e ir para a D. Há alguns meses, o novo grupo que comanda o clube surgiu com a ideia de transformar o JEC em uma Sociedade Anônima, com o objetivo de criar um fato novo e uma nova dinâmica de administração. Tudo bonito no papel, mas... quem se interessaria em aportar dinheiro em um clube na quarta divisão nacional, que estará em campo praticamente por apenas um semestre, em um campeonato sem visibilidade? A falta de habilidade na área do futebol de quem comandou o clube em tempos recentes levou o Joinville a uma situação desesperadora. Não consigo compartilhar da calma que o presidente Vilfred Schapitz passa nos microfones. O clube não morrerá, isso é verdade, mas entrará em uma situação delicadíssima. No domingo, ele admitiu que o JEC está em problemas com o Profut. Poderá ser retirado do programa, com consequências seríssimas, se não regularizar o que deve.

O Joinville Esporte Clube movimenta uma economia. Só emissoras de rádio que transmitem os jogos, são quatro. Se elas estarão firmes em 2019 na quarta divisão, sem TV pra fazer Offtube, só o tempo dirá. A cidade é estreitamente ligada ao clube. Basta andar pela cidade e ver, em todos os cantos, bares que tem no seu letreiro o brasão tricolor. A queda para a D também pode prejudicar toda essa cadeia, de um clube que chegou a ter 12 mil sócios, jogos com nunca menos de 5 ou 6 mil torcedores e uma venda considerável de itens licenciados, na loja do estádio ou no em um dos shoppings da cidade (cuja funcionária estava sem receber salário e precisou da ajuda de colegas vizinhos para dar um jeito na vida).

Trabalho lá há 5 anos. Vivi bons e maus momentos do clube. Este, com certeza, é o pior. O torcedor, machucado, não vai ao estádio para não se incomodar ainda mais. A sequência de erros organizacionais está culminando em um vexame histórico que inclusive prejudicará o futebol catarinense, já que a queda do JEC resultará em perda de pontos no ranking de Estados na CBF, o que dá um risco enorme da perda de uma vaga na Copa do Brasil.

O Joinville não precisa de promessas e discursos bonzinhos. Precisa de ações concretas e um futebol forte. Sem resultado, não tem como chamar o torcedor de volta. E não é com saída de jogadores e manutenção de técnico tampão com nome de craque argentino que a situação vai melhorar.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O rebaixamento do Joinville - Parte 2



Seguimos falando da grande sequência de erros que acabaram levando o Joinville para a Série D do Brasileirão. Nos últimos dias, muita gente (e eu me incluo nisso) passou a olhar para a tabela e fazer contas. Até era possível escapar, bastava "apenas"ganhar as quatro partidas que restavam, em um cenário altamente desfavorável. Afinal, o "catadão" montado em etapas pela diretoria, que ia se dissolvendo com o passar das rodadas, não respondia em campo. A derrota para o Botafogo melou tudo e decretou a degola.

Guarde esse número: 35. Na Série C, ninguém pode sair contratando aos montes, nem mudando todo o elenco no final do primeiro turno. Há limite de inscrições, o que faz com que os clubes façam bem as contas. Se um deles for embora, não tem substituição. No JEC, com os resultados não aparecendo, o elenco foi diluindo, em um processo desencadeado pela parceria com a LA Sports, onde o presidente Vilfred Schapitz já demonstrou arrependimento.

Antes do início da Série C, a nova diretoria do JEC viu na parceria com a empresa a possibilidade de montar um time melhor com um custo mais baixo. A proposta era simples: jogadores viriam com um salário menor, mas com um bônus ao fim do campeonato em caso de acesso. Como os resultados não vieram, eles foram deixando o clube, um a um. Emerson, Pierre, Misael, Davi....
a cada semana eram anunciadas as suas saídas no site do clube, sob o argumento de "insatisfação com o rendimento pessoal". Balela, era o bônus que não iria vir. Como não haveria nenhum tipo de multa, o clube, na pindaíba que vive, acabou liberando. O último foi o questionado lateral Jonas, outro que veio com muita expectativa. Nesse momento eles preferem abandonar. Mas a história não esquecerá deles.

Faltando algumas "vagas" no elenco, veio a demissão de Matheus Costa, aquele que foi, ao meu ver, uma das maiores bolas foras já dadas na história do tricolor. Trazer um cara desconhecido, que só tem passagem como interino do Paraná e sequer ficou para a temporada seguinte? Pois é. Nas coletivas, adorava pedir paciência. Enquanto isso, as rodadas passavam e os resultados não vinham. Caiu após a quarta derrota seguida, em casa, para o Cuiabá.

Após a demissão, começou a corrida pela substituição. Hélio dos Anjos foi contatado, mas sua pedida salarial ultrapassa e muito o que o clube pode pagar. Pintado foi sondado. Na quarta ou quinta opção estava Márcio Fernandes, ex-Santos e com algumas passagens sem muito brilho por aí. Ligaram para ele, disseram qual o teto salarial e ele topou. Essa quarta ou quinta opção chegou ao vestiário, com os jogadores sabendo que ele tinha sido o primeiro a dizer "sim" depois de muitos "nãos". O resultado foi desastroso. Além de piorar, o time ficou medroso. No jogo contra o Ypiranga, o JEC entrou em campo para não perder, quando precisava ganhar. No desespero, começou a colocar jogadores da base pra ver se algo novo aparecia. Chegou a falar, após a humilhante goleada para o Cuiabá, que não sabia o que acontecia, já que falava as coisas para o time, e ele não reagia. Era a deixa que tinha perdido o comando, que tenho lá minhas dúvidas se um dia teve. Acabou demitido.

Ato seguinte, a diretoria novata surpreendeu mais uma vez: disse que não contrataria um novo técnico até a chegada de um novo executivo de futebol. Quatro ou cinco foram "entrevistados", segundo o presidente (um deles foi Abel Ribeiro), e ainda não houve definição, e isso com o time ainda tendo alguma chance de escapar. Coube a Pedrinho Maradona, técnico do sub-20 que, diga-se de passagem, faz péssima campanha no Estadual, a oportunidade de fazer algo novo. Pediu pra ser chamado de Pedro Medeiros, mas nada que mudasse o panorama. Mais uma derrota.

No próximo post, vamos falar sobre o futuro do JEC. Tem gente que acha "uma boa" a queda para a D. Também tem o projeto do JEC SA, uma ideia legal, mas muito difícil de vingar na quarta divisão nacional. Não perca.

domingo, 22 de julho de 2018

O rebaixamento do Joinville - Parte 1

A derrota para o Botafogo de Ribeirão Preto em casa transformou o estado grave do JEC em um coma irreversível. O time será rebaixado, ainda que um monte de rasuras em papel possa dizer o contrário. Vamos combinar: faltam três jogos, dois fora de casa. Como visitante, o time só perde e não fez nenhum gol. O time não se acerta e perde jogador toda semana. Vai se recuperar? Só quando o sargento Garcia prender o Zorro.

Parte da atual diretoria do JEC, presidida por Vilfrid Schapitz (quarto, da esquerda para a direita)


Dá pra escrever um livro sobre acontecimentos e erros dos últimos meses que culminaram com o humilhante rebaixamento para a Série D, menos de 4 anos depois do título nacional da Série B que levou o JEC à elite. Por isso, o Blog vai fragmentar esse "dossiê" em partes. Há muita coisa a ser dita, mas com uma conclusão: o rebaixamento foi absolutamente justo. Agora, o clube terá que passar pelo inferno da quarta divisão, em um campeonato curto com vários mata-matas para se conseguir o acesso. Não é fácil.

Hoje vou falar sobre a diretoria, alvo de tantas críticas. Primeiro, é necessário dizer que nem na gestão de Nereu Martinelli (que levou o time à Série A), o clube teve equilíbrio financeiro. Tanto é que o próprio Nereu aparece como credor de um empréstimo contraído para pagar contas do clube. Uma hora a sua saída do clube iria acontecer, e Jony Stassun surgiu como o nome para recolocar o JEC na elite. Todos sabemos o que aconteceu.

Nereu conhecia de futebol, tinha caminhos, tinha contatos. Até acho que a melhor fase dele era na direção de futebol, na gestão de Márcio Vogelsanger, que deu o título da Série C em 2011. As novas gestões tinham ideias, visões até legais de negócio, mas faltou uma coisa primordial: conhecimento de futebol. A queda para a terceira divisão, em 2016, provocou uma queda brusca de arrecadação. O número de sócios diminuiu, empréstimos tiveram que ser feitos de novo (Stassun cobra da atual diretoria um deles, bem grande) e faltou qualidade nas contratações. Só atacantes, foram 12 ou 13. Folha inchada, futebol não funcionou. Mais um ano na Série C.

Bom ressaltar que o Joinville iniciou sua pré-temporada para 2018 bem antes dos outros. Deu férias para os jogadores com a Copa SC em andamento e, em dezembro, já trabalhava sob o comando de Rogério Zimmermann que, com um elenco liimtado, fez um estadual honesto. Na Copa do Brasil, acabou caindo na segunda fase para o Vila Nova, em jogo único fora de casa. Nesse meio-tempo, um novo grupo, comandado por Schapitz (ex-vice de Nereu) e Alexandre Poleza, se candidatou ao processo sucessório e exigiu de Stassun a participação em uma espécie de comitê de transição.

A nova diretoria só deu tiro no pé. Os associados que queriam pagar suas mensalidades não conseguiam deixar em dia por que o sistema dos boletos ficou fora do ar por falta de pagamento. O novo grupo assumiu o clube achando que poderia torná-lo sustentável na Série C a ponto de não ser necessário "tirar do bolso" para fechar as contas. Precisou, e inclusive um deles colocou a casa como garantia de empréstimo. Rogério Zimmermann e o gerente Carlos Kila foram demitidos, e a reposição foi desastrosa. Adilson Fernandes, que não veio para o cargo de gerente de futebol, acabou se tornando um "interino-permanente", sem experiência alguma no mercado. Jogadores como Elias, Murilo Rangel e Evaldo foram embora. Gelson, volante destaque do Estadual no Concórdia, foi anunciado como reforço e não ficou sob a alegação de reprovação nos testes físicos. Uma semana depois ele foi para o Tubarão, onde arrebentou, não se lesionou e fez torcedores de lá perguntarem para mim "que merda o JEC fez pra não ficar com ele".

Ato seguinte, veio a parceria com a LA Sports, que acabou na vinda de Mateus Costa, um cara sem experiência que carregava consigo o acesso do Paraná para a Série A nas rodadas finais, após a conturbada demissão de Lisca. O "almofadinha", como era chamado nos bastidores, mostrou que a escolha tomada foi errada. Já os atletas da LA vieram, nada fizeram, e desembarcaram.

No próximo post: Como os atletas da LA ajudaram a afundar ainda mais o time e as escolhas mal feitas culminaram com o rebaixamento.